O maior inimigo do pensamento autoritário é o pensamento livre.
( Sergio Arouca, 1941-2003)

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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Relato de Parto na Suécia









 

30 de abril - 41 semanas de gravidez: vou dormir me sentindo a última das grávidas. Mais de 9 meses. Todas as mulheres do mundo vão parir antes de mim. Tenho a sensação de estar no final da fila. Há dias venho tendo contrações que não ficam ritmadas mas hoje as contrações sumiram. Não senti nada o dia todo. Estarei eu eternamente grávida?

1 de maio - 41s+1 dia: acordo às 4 da manhã como de costume. O esposo dorme tranquilamente. É feriado, dia do trabalhador e noite passada ele veio deitar tarde. Pego o celular e começo a ler sobre gravidez pós-termo. Uma mensagem chega no whatsapp. Alguém do Brasil perguntando sobre o parto. Eu também gostaria de saber quando vai ser mas não tenho a mínima idei...Ai..uma dor estranha. O que foi isso? Largo o telefone com a frase pela metade. Ai. outra dor mais forte ainda. Chamo o marido do outro lado da cama: "Jan, Jan". Ele nem se mexe. Outra dor: "ACORDA. EU TO MORRENDO!" Grito em um português bem claro. Após ele se recuperar do quase-ataque cardíaco com o grito que dei, pegamos o telefone para ligar para o hospital. Perco um pouco de água com sangue. A atendente lembra das minhas aulas de curso de gestantes e de como o parto pode demorar e acrescenta que deveríamos esperar em casa até o trabalho de parto acelerar para chegar ao hospital com a dilatação avançada. Eu não consigo me expressar. So tenho palavrão na cabeça. Outra dor insuportável. Marido avisa que estamos indo para o hospital agora mesmo. Ela desiste de contra-argumentar. Se ela lesse meus pensamentos, teria desligado o telefone na nossa cara. Chamamos um táxi e pegamos as bolsas da maternidade. Esqueço até de respirar quando a dor chega. "Respira, Tati, lembra de respirar". Marido vai me lembrando disso o caminho todo. As contrações não tem intervalo.  "Eu preciso de uma anestesia." Penso aos gritos. Não consigo me comunicar. Por que diabos o táxi é tão lento? Eu vou bater neste motorista. Nao! Vou espanca-lo. Meu Deus, que dor. Imagino as manchetes em jornais suecos: "brasileira em trabalho de parto mata taxista". 

5:30 da manhã: chegamos na porta do hospital e eu salto do carro. Uma enfermeira boazinha vem me receber na porta enquanto marido paga o táxi. Outra contração. Não conheço aquela mulher mas me agarro ao braço dela quase arrancando (Lembrete: acho que deveria enviar uma caixa de chocolate e um pedido de desculpas). Fomos direcionados para uma sala de monitoramento. "Por favor, me dêem algo pra dor. Pode até ser uma pancada na cabeça que me faça desmaiar. Qualquer coisa. " Me deitam em uma maca e conectam vários fios na barriga. "Quando vão me dar algo pra dor?" Volto a perguntar. A enfermeira boazinha sai e vai chamar outra pessoa. Uma mulher de óculos entra e diz que vai fazer um exame de toque para saber com quantos centímetros estou. "Não precisa me explicar, faz logo essa droga" .Outra contração. Nem sinto o exame. Estou revirando os olhos de dor. Tenho vontade de arrancar todos os fios. Ela explica algo que não presto atenção. Só ouço '4 cm de dilatação.' ."Respira, respira." Alguem me aconselha. "Eu nao quero respirar, powrra. Quero algo pra dor!" 

Somos levados pra outra sala. Eu esqueço sacolas, sapatos, roupas, não quero saber de nada. Marido tenta pegar as coisas mas eu preciso de um braço pra cravar as unhas. A enfermeira boazinha traz nossas coisas para a sala de parto. Acho que ela entendeu que é melhor deixar o braço longe de mim. 

A cada contração eu só pensava em homicídio. Na sala de parto, a enfermeira boazinha me entrega uma máscara de gás e explica que esta vai me ajudar com a dor. "Me dá, me dá, me dá." Puxo a máscara da mão dela para respirar. Para quem olha a cena, parece que minha vida depende deste aparelho. Ponho a máscara mal cobrindo o nariz mas eu tô desesperada demais pra pensar como se usa esta droga. Respiro. Respiro. Respiro....res-pi-ro e piro...Começo a ficar anestesiada, que gás gostoso, tudo parece tao tranquilo agora...maresia/ sente a maresia/ maresia hu-uhu...Por que tá todo mundo falando engraçado e se movendo devagar? A enfermeira boazinha é japonesa, talvez chinesa, não, talvez tailandesa...ela é engraçada. Por que só notei isso agora? Oooolha, meu marido tá aqui também.  Que legal. "Oi marido." Será que eu tô falando sueco ou português? Não sei. Tá tudo meio confuso. Fico imaginando se sei falar mandarim. Mas por quê to pensando nisso no meio do trabalho de parto? Eu tô em trabalho de parto, né? Será que estou em casa e isso é um sonho? Seria a zebra branca com listras pretas? A boca das pessoas se mexe mas o som só sai minutos depois. Marido conversa algo com outra enfermeira. Parece que vão chamar o anestesista. Alguém me explicou algo mas eu me distrai com a fada azul que passou voando  acenando na janela. Acho que estou loucona.

O anestesista chega, o gás alivia mas as contrações ainda doem. Eu não lembro do rosto dele. Estava ocupada entre os delírios do gás e delírios de dor. Ele aplica a epidural. Ai que alívio. Eu ainda tô abraçada com a mascara de gás. A enfermeira sugere retirar. Eu abraço o equipamento e imploro pra deixar comigo. "Se você tirar isso, eu vou morrer." Ela ri e explica(como quem fala com uma criança) que pode devolver depois. Com alguma relutância, eu acabo concordando. 
11h da manhã: Dilatação completa. 10 cm. Esperamos apenas a bebê descer. 

Meio dia: sem evolução do trabalho de parto, sugerem colocar ocitocina no soro para acelerar as contrações. Concordo.
2h da tarde: É feita a troca de turno da parteira e da enfermeira que me atendiam. Os batimentos do bebê caem. Eu fico irritada.Quero a parteira anterior de volta.  Me pedem para tentar novas posições na maca, talvez sentar um pouco, ficar de quatro, virar para o outro lado. Só me falta sugerirem plantar bananeira. Nada resolve. Chamam uma médica que vai tirar sangue da cabeça da bebê para medir a oxigenação. Os números são ruins. Conversam entre eles e decidem retirar a ocitocina do soro. Os batimentos normalizam. Alguns minutos depois outro exame de sangue. Uma agulha é inserida pelo canal vaginal até o útero, onde retiram sangue da cabeça da bebê. Desta vez os números são melhores. Continuamos com o trabalho de parto.

3h - 4h da tarde: bola de Pilates, gás, massagens, conversas com o marido sobre o futuro. Passamos a maior parte do tempo a sós na sala de parto. O monitoramento é feito a distância de outra sala pelas enfermeiras numa tela que indica meus batimentos e da bebê. Em meu plano de parto, destaquei como privacidade era importante pra mim. Não consigo relaxar com estranhos mexendo na minha vagina. 
5h da tarde: Já estou exausta. As contrações continuam mas não há mais evolução do trabalho de parto. A médica chega para tirar sangue da bebê de novo. Os números muito ruins de novo. Ela explica que a bebê esta mal posicionada. O trabalho de parto não avançou quase nada. Também há indicios de fezes no liquido amniotico.  Sugere uma cesárea por segurança. Bad Vibe. As coisas não estão saindo como planejei. Não sei se choro ou se peço pra isso terminar de uma vez. Converso com meu marido e concordamos com a cirurgia. Sou levada para o centro cirurgico.

5:15 da tarde: braços esticados com agulhas nas duas mãos. Muita gente na sala. Nao tinha planejado um parto com tanta plateia. Muitas luzes. Me sinto cansada e meio enjoada. Pergunto pelo meu esposo. Alguém me informa que ele esta vestindo a roupa para entrar na sala. Ele chega, me sorri um sorriso de quem pede calma e senta ao meu lado. O parto começa. 

5:21 da tarde: Ouço o choro da minha filha. Marido me abraça e choramos mesmo antes de vê-la. A enfermeira vem nos mostrar. Não consigo vê-la bem. As lágrimas embaçam a minha visão mas sinto o toque da sua pele na minha brevemente. Agora somos uma familia completa. Ela, ele e eu. Tudo parece ter valido a pena. Começo minha jornada numa aventura chamada maternidade. Cada dor e cada lágrima valeu a pena. Nasce o mais lindo dos meus trabalhos: Eleonora Marie Sousa Lindgren. 




sábado, 21 de abril de 2018

A maternidade, as visitas, os palpites e a parentada

Não. Ainda não ganhei bebê. Esse tipo de pergunta realmente não me irrita, inclusive aproveitei pra fazer um bolão no Facebook pra adivinharem a data. É um tema que passa longe de me irritar. O que realmente me irrita é quando fazem a pergunta idiota e cretina de "sua mãe não vai ficar com vc no pós parto?". Não. Não vai. Por que? Porque eu não quero. Pra mim não tem nada mais machista e estupido do que acreditar que toda mulher precisa de outra mulher pra enfrentar a maternidade. A criança tem um pai. O que ela precisa é de pai e mãe e a última coisa que quero é mãe, sogra, cunhado, parentada dando palpite do que se deve fazer em um momento que deveria ser do casal. Sim, exclusivamente do casal. Somos pais de primeira viagem: eu nunca fui mãe e ele nunca foi pai. Vai ser um momento de descoberta e aprendizado para nós dois. Ele não sabe o que fazer e eu também não sei mas juntos vamos descobrir nosso estilo de paternidadeve maternidade. Juntos e sem interferências. A última coisa vc que quero é seguir modelo pre-estabelecido.  Se eu tiver dúvidas quanto a criação eu vou ler ou buscar ajuda médica ou pedir  conselhos de quem parece ter um estilo mais próximo do meu. Mas não quero ninguém me dando palpite de como a criação deve ser. Minha sogra é maravilhosa e criou 4 filhos muito bem mas tambem não permito que ela ou mesmo minha mãe dêem conselhos quanto ao que fazer. Às vezes sorrio educada pra não entrar em conflito quando as pessoas fazem comentários estúpidos, mas mentalmente eu estou mandando ir tomar bem longe. De certa forma até consigo entender quando num país de cultura tão machista quanto o Brasil(acredite: cheguei ao absurdo de ter que ouvir de uma tia que a minha mãe é necessária no pós parto porque homem nao sabe cuidar de criança) ou quando o homem tem um espaço tão curto de licença paternidade(são sete dias no Brasil? Eu não tenho certeza. Na Suécia são 480 dias que podem ser pedidos até a criança completar 6 anos), a necessidade de existir outra pessoa pra ajudar a nova mamãe é imperativa. Mas essa criança que está chegando tem pai(que não é brasileiro nem machista) e tem mãe e se acaso nos precisarmos de ajuda nós vamos pedir. Até lá agradecemos e solicitamos que guardem os palpites e as visitas que não foram solicitadas nem previamente acordadas. Esse é um momento do casal e gostaríamos de vive-lo com respeito as nossas escolhas. Obrigada, de nada. 

terça-feira, 6 de março de 2018

Conselho que te dou

Um conselho é uma ideia/perspectiva a cerca de um fato, que tenha sido solicitada a alguém da sua confiança e que conheça o contexto da sua realidade. O resto é opinião generalista de gente curiosa, querendo fazer experimento social ou traçar um comparativo com a tua vida como forma de validar as próprias escolhas.  Então, reintero, para ser considerado um conselho convém a existência de três variáveis: a) ser solicitado; b) ser dado por alguém da sua confiança; c) e que esta pessoa conheça integralmente o contexto sobre o qual opina. Pois bem, minha definição de "alguém de confiança" é de alguém que me conheça bem mas isso não basta para opinar. É necessário também conhecer o recorte contextual sobre o qual se opina e ter permissão para emitir um parecer situacional a depender da perspectiva que se observa. Satisfeita as três variáveis temos então um conselho. Que será avaliado, julgado e pensado, com mais ou menos cuidado a julgar pelo grau de laço de afetividade existente nas variáveis mencionadas. 
Tudo que fuja ao quadro exposto não deveria ser nomeado como conselho sob o risco de causar desperdício de tempo e energia para uma avaliação mais detalhada. E desperdício de recursos mentais e emocionais pode levar a exaustão além de outras debilidades psicológicas e quiçá físicas.
Durante minha gravidez, pude notar que existiam muitas opiniões generalistas disfarçadas de conselhos. Se quem as emitia me pegava em um bom dia, eu escutava com atenção, fingia surpresa como se ouvisse pela primeira vez e descartava na próxima lixeira mental. Se por azar ou infelicidade do individuo, eu estivesse com um humor agridoce (o que não é raro) a resposta poderia não ser no nível e tom educacional condizentes com minha escolaridade.
Então, por favor, antes de achar que está ajudando e se auto-congratular ao emitir suas  impressões sobre a vida alheia pense se o outro está realmente aberto ou disponível para recebê-las. Ou vc corre o risco de ser chamado de idiota mentalmente ou verbalmente.

Esse texto vai pra série "Gravidez e paciência zero"

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

31 semanas da Eleonora

Vamos lá. Eu sobrevivi! Cheguei a 31 semanas de gravidez (início do 8° mês). Entre trancos e barrancos eu cheguei aqui e começo agora a me habituar com a minha situação gravídica. As pessoas costumam dizer que o terceiro trimestre é dificil mas pra mim ele tá sendo um paraíso se comparado ao primeiro e ao segundo. Eu ainda tenho vomitado mas muito raramente. E continuo com os remédios pra enjoo. Fiquei com trauma de vômitos. 
Hoje me pesei e estou com 56,5 kg. Ainda não consegui, sequer, recuperar meu peso no início da gravidez. A minha parteira (sim, na Suécia são parteiras - enfermeiras obstétricas que cuidam do parto e da gravidez) acha que eu preciso ganhar peso. Mas com a comida sueca, que eu odeio, isso é difícil. Desde que voltamos do Brasil tenho me esforçado ao menos pra não deixar o peso despencar de novo. No Brasil consegui ganhar 4 kg em apenas 3 semanas comendo tudo o que eu gosto e que saudade eu estava das comidas regionais. Essa é a parte mais difícil de se viver longe do seu país. Esqueçam quando disserem que a saudade da família dói, dos amigos, do trabalho...o que dói mesmo é saudade da comida. E é uma dor profundamente sentida. Odeio quando amigos postam fotos  na rede social de comidas que eu só posso lembrar o sabor e eu fico pras bandas daqui chupando o dedo.
Jan e eu (+ eu do que ele) decidimos que Eleonora dormirá no nosso quarto enquanto for pequena, apesar de termos dois quartos extras e desocupados na casa. Depois de ler e pesquisar um pouco cheguei a conclusão de que seria muito cansativo levantar muitas vezes no meio da noite para amamentar e ainda ter que ir a outro quarto. E sobre amamentação fiquei muito surpresa quando minha parteira me perguntou se eu gostaria de amamentar. Ok...eu nunca tinha pensado sobre isso como uma opção e sim uma obrigação. Me perguntar "se eu quero" foi quase um choque. Mas na Suécia mulheres têm direitos, mesmo aquelas que são mães. Ninguém vai sacrificar uma mulher que se recuse a amamentar. O mesmo passou quando eu engravidei. A primeira coisa que a enfermeira me perguntou depois de ler meu teste positivo, foi se eu gostaria de ter esta criança. (Aborto aqui é legal é um processo bem simples. Basta a mulher dizer que não quer). Eu não imagino alguém num serviço de saúde no Brasil me fazendo perguntas como essas. 
Eu sempre quis ser mãe e achava que daria uma grande mãe (modéstia a parte) mas depois dos primeiros meses de gravidez todas as certezas que eu tinha foram por água abaixo. Eu questionava minhas habilidades pra cuidar de outra vida e ate
até minha sanidade psicológica. Me peguei pensando em coisas que eu nunca tinha feito e fiquei com medo de nunca mais fazer ("meu Deus, eu nunca sambei na Sapucaí, eu não escalei uma montanha e nem sequer conheço a Tailândia" ) Bateu um medo de nunca mais consegui fazer o que eu queria. Levou 8 meses de gravidez pra eu me habituar com a ideia de que é possível fazer tudo isso mesmo com uma criança. Talvez a logística seja diferente mas acho que seria possível. Meu esposo me dá e me deu muito apoio nos meus momentos de crise existencialista. Ele é um homem muito otimista e bem diferente de mim. Pra ele, dá pra escalar até o monte Everest com a Eleonora no colo de fraldas. Eu não tenho dúvida de que ele será um pai excepcional. 
Voltando a falar desta gravidez, é a primeira vez que as coisas se acalmam e eu não tenho nenhum piripaque nervoso ou de saúde. É bom ter um pouco de paz no meio deste turbilhão de novos acontecimentos. Eu continuo indo para as aulas de sueco mesmo com a barriga maior a cada dia mas confesso que ficar sentada tem sido bem incômodo. Sinto uma pontada nas costelas e falta de ar. Sou obrigada a ficar rebolando na cadeira testando a bunda em diferentes posições para diminuir o incômodo. Mas tirando isso, eu me sinto até mais disposta. Voltei a conseguir entrar na cozinha e preparar minha própria comida (para alívio do marido). 
Tem dias mais fáceis e dias mais difíceis mas em geral tem sido dias tranquilos. Falta pouco mais de dois meses pra está gravidez acabar e espero que não mude muita coisa até o final. Eu volto para escrever mais a respeito.  

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Gravidez desejada mas odiada

   Sei que ando meio sumidaça das postagens mas vou tentar retomar com mais frequência. O motivo se justifica por si só: uma gravidez. Sim, mal cheguei em terras vikings e páh: estou grávida. Não que tenha sido surpresa, já que meu esposo e eu vínhamos tentando há mais ou menos um ano sem sucesso e já cogitando buscar ajuda médica. Então foi uma gravidez que eu estava querendo mas não estava esperando, já que abolimos métodos contraceptivos sem nunca sequer levar sustos. Mas aconteceu e nunca vi meu esposo tão feliz. Ambos temos 33 anos e é nosso primeiro rebento. Uma menina na verdade. Que eu rezo todos os dias que nasça com o temperamento tranquilo do pai. 
  Levamos uma vida financeira e emocionalmente estabilizada conjuntamente. Quem nao é nada disso sou eu sozinha. Larguei um emprego concursado e de nível superior na minha cidade, e tá certo que o salário que o Estado me pagava era uma miséria, mas foi o que me possibilitou a compra do apartamento próprio. Sonho que, quem não tem papai e mamãe bancando tudo, sabe como é suado. Eu morava sozinha e minha liberdade de ir e vir inclusive viajar sempre que eu desejasse era algo que eu adorava na vida de solteira. Na vida de casada também: meu esposo e eu viajamos para muitos países desde nosso noivado( que inclusive foi feito numa viagem atravessando o mar báltico para a Estônia). Eu chamo de sorte ter alguém que gosta tanto quanto eu de aventuras e experimentar coisas novas. Mas pelas bandas daqui eu ainda busco meu reequilíbrio profissional. 
      Contando a história assim pode parecer que eu não tenha perfil para a maternidade. Engano seu. Sempre quis ser mãe e ele pai. Falávamos como seria bom formar uma família e educar uma criança, de como eu gostaria de ter um bebê pra chamar de meu e ele um pequeno pra brincar de lego. 
       Esta foi/é uma gravidez desejada. Uma criança abençoada que vai nascer num país com educação e qualidade de vida invejáveis, com pais amorosos e numa casa onde já terá um quarto todo decorado esperando.
    Mas, porém, contudo, entretanto e todavia não  tudo são flores. Há tambem os espinhos. Que são o motivo do meu desabafo de hoje: os percalços da gravidez. 
          Com toda sinceridade da minha alma, que tenho vontade de esfregar a cara no asfalto quente de quem me diz que a gravidez é a fase mais plena na vida de uma mulher. Que é lindo e mágico estar grávida. Não é, porra! É um saco! É angustiante, é doloroso, é cheio de ansiedade, medos, inseguranças e sintomas. Pra mim é assim. 
         Lembro de quando estava no início da gravidez ( hoje passo da metade), quando minha cunhada me perguntou que sintomas de gravidez eu sentia e na maior ingenuidade respondi nenhum. Porque era nenhum mesmo. Até a oitava semana de gravidez eu achava que poderia bancar a Eva e repovoar a Suécia e todos os países nórdicos com meus filhos. Que poderia ter 2, 3, 5...10 igual minha vó. Que menina boba e inocente eu fui. Hoje eu tenho certeza que será filho único. Explico porquê: Depois de certa altura começaram os vômitos, três a quatro vezes ao dia. Eu já tinha um travesseiro no banheiro. "Ah mas isso para depois de três meses". Me disseram. 10 quilos mais magra e quase 6 meses depois ainda não passou. Eu continuo enjoando, embora com menos frequência. Mas então outras dificuldades começaram a surgir : Gases. Ah gente, eu não vou falar bonito, não. PEIDOS. Peidos horrorosos. Peidos o tempo todo: peidos caminhando, peidos sentada, peidos deitada, peidos respirando, peidos piscando... A noite era necessário amarrar os lençóis na cama para não saírem voando. Meu marido que, era branco e passou a ser amarelo, dizia que compreendia. Ele é um lord e muito gentil para  dizer que se incomodava. Era a parte ruim da gravidez. Mais uma das partes ruins. Lembro de certa vez enquanto ele tentava me convencer de que tinha tesão por mim, um peido estrondoso e sem querer atrapalhou nossa conversa. Rimos. Não tem muito o que fazer nesta situação.
   Então a barriga foi crescendo e os problemas com prisão de ventre começaram a aparecer. Cada ida ao banheiro era um sofrimento. Era como se fosse uma amostra grátis de parto. Uma espécie de curso preparatório com direito a bônus: hemorróidas. Doloridas e sofridas hemorróidas. Eu não sabia o que era isso. Hemorróidas que pareciam simular a cabeça de uma criança saindo da bunda. O vaso sanitário passou a ser meu maior pesadelo. Ele me aterrorizava em sonhos. Lactulona, comprimidos de fibra e complementos especiais para o intestino passaram a andar na minha bolsa com o nome "kit de sobrevivência". Eventualmente, uma dose ou outra relaxava o intestino tanto, que diarréias também eram normais entre uma crise e outra de prisão de ventre. E como se não bastassem os vômitos constantes, gases, prisão de ventre, diarréia, além de todo o cansaço natural da gravidez, eu ainda tinha a sensação de festa junina no estômago. Tinha alguém pulando a fogueira de São João dentro de mim. Uma queimação sem fim. Ou era a santa inquisição com meu boneco de vodu queimando de dentro pra fora. Não era possível ter mais azia do que eu. Ah e eu citei que boa parte dos remédios que tomava eu vomitava também? Talvez porque eu sou extremamente alérgica a muitos remédios ou talvez porque o estômago já estivesse bastante debilitado pelos vômitos constantes.(citei que tenho gastrite também?) Ou talvez porque eu seja mesmo uma grávida nutella que não aguenta tudo o que as mulheres maravilhas e super mães tiram de letra. Eu não. Sinto que esta gravidez tem sido uma experiência de quase morte pra mim. Cada sensação de mal estar, cada queda repentina na pressão,  cada peido constrangedor, cada jato de vômito de dar inveja até na menina do exorcista. É difícil desfrutar e estar feliz quando vc nunca se sente bem. Não vejo a hora disso acabar e ter meu bebê no colo. Talvez eu reclame de outras coisas também, como a dor da amamentação mas até ter novas coisas para reclamar vai ser bom, porque passar 9 meses reclamando dos mesmos sintomas é chato até pra mim. Por isso, como eu disse no início do texto espero que está criança nasça logo e nasça com o temperamento do pai, por favor. Amém. 



domingo, 16 de julho de 2017

Primeira Semana da Vida Nova

Bom, hoje faz uma semana que mudei para Suécia e foi uma semana muito corrida porque meu esposo e eu ainda temos muitas coisas para organizar na casa nova e adaptação dos meus 4 gatos não está sendo fácil. Isso mesmo:4! Eu trouxe comigo do Brasil. Não foi fácil, barato nem divertido trazê-los numa viagem tão longa e cansativa para outro continente mas abandonar ou deixa-los pra trás nunca foi opção pra mim.
Passo a maior parte do tempo sozinha em casa desencaixotando coisas ou experimentando posições novas para os móveis ou separando brigas de gatos. A tarde tento preparar o jantar e esperar Jan chegar do trabalho. Como estamos no verão o que não falta aqui é sol ( embora nem de longe isso seja sinônimo de calor para as bandas de cá) então o dia segue até 23:30h ou meia noite. Meu esposo e eu fomos passear algumas vezes na claridade de tarde da noite pelos bosques que há na proximidade do condomínio e onde é até possível colher frutinhas como groselha ou blåbar ( não sei o nome em português).  Durante o fim de semana aproveitamos para tomar uma cerveja em Estocolmo, mas honestamente, álcool aqui é algo muito caro. Fomos também comprar o papel de parede que quero para nosso quarto e alguns móveis para o banheiro. Jantamos na casa dos meus sogros e as vezes fico um pouco farta de inglês e sueco. Mentalmente cansada. A família de Jan tem falado cada vez menos comigo em inglês e tentado se comunicar mais em sueco. Algumas coisas entendo por intuição outras não bato nem na trave. Depois de duas horas a cabeça dói de ficar tentando traduzir tudo e eu passo apenas a sacudir a cabeça em tom afirmativo. Se estiverem me perguntando se sou idiota, eu confirmo sorrindo ainda. Ahahahaha
Mas quero ter paciência comigo ( hábito pouco comum pra mim) quero não me cobrar demais para depois não estar aos prantos por não ter atingido as metas. Esses primeiros meses eu gostaria de relaxar e decorar nossa nova casa. Por enquanto ainda está sendo como férias pra mim. Talvez meu blogger mude um pouco o foco e passe a falar mais de coisas do dia a dia. Quase um diário que será muito interessantreler daqui há uns anos. De Tati pra Tati.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Migrationsverket


Gente, mal posso descrever minha felicidade. Depois de quase 14 meses esperando um visto de residência e trabalho para poder ir viver minha vida com meu sueco, ele foi finalmente aprovado. E foi um processo rápido de decisão, pois na quarta-feira não tínhamos sequer um responsável pelo nosso caso, o que significa que a pasta nem tinha sido aberta ainda para análise de documentação. Mas então, uma surpresa agradável na segunda-feira, o meu esposo me envia uma mensagem dizendo que recebeu um email da Migrationsverket ( Orgão de imigração da Suécia) dizendo que nosso caso já tinha uma resposta mas por medida de segurança só poderia ser dado informação pelo telefone. Mas como o fuso-horário Brasil-Suécia são cinco horas de diferença, o orgão já estava em final de expediente e meu esposo não conseguiu chamada para saber se tínhamos uma resposta positiva ou negativa. Assim que eu soube, liguei para o Consulado Sueco no RJ para saber a decisão, e foi um grande Positivo. A palavra mais bonita que ouvi na vida. Felicidade indescritível.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Migrationsverket - o pior orgão sueco

Hoje faz 13 meses e 17 dias que dei entrada no meu visto sueco. Sinto muita raiva do serviço de imigração sueco porque simplesmente eles não se importam com a distância que sofro longe do meu marido. O processo todo é demorado e nada justo, sendo que pelas novas regras quem deu entrada a partir de 20 de julho obtém o visto mais rapidamente. ( de 5 a 8 meses pelo que tenho observado).
Eles culpam a grande onda de imigrantes pelo aumento no tempo de espera na fila, eu culpo a falta de competência e planejamento das autoridades suecas. Até meu esposo, que em geral é super tranquilo, já se aborreceu com a quantidade de emails e ligações que fez para este orgão apenas na tentativa de que alguém ao menos abra nossa pasta e visualize nosso processo. Na Suécia, não importa muito se você é casado ou não. É possível pedir o visto de residência apenas tendo um relacionamento estável. E acredite: o visto para namorados ou casados não sofre qualquer distinção. O tempo de espera é o mesmo. E vc não precisa casar para morar na Suécia. Creio que essas medidas visem proteger os cidadãos suecos de casamentos apenas por interesse, ou talvez seja apenas algo cultural mesmo. Sei lá. Mas casamento para eles no papel não tem muita diferença. Vemos muitos casais com filhos e morando juntos por anos sem nunca terem se casado. Mas isso era importante pra mim e por isso eu e meu sueco decidimos casar. E também para que eu não pirasse com esse longo tempo de espera do visto sueco. Ajudou a distrair mas depois de quase 14 meses esperando este visto eu começo a fica extremamente cansada e me perguntando por que não moramos logo no Brasil ao inves de ficar dependendo de uma instituição pública em outro país que sequer nos dá atenção. Mas daí lembro que ser pobre na Suécia é melhor que ser classe média no Brasil e penso na qualidade de vida para criar os filhos que estamos planejando para o próximo ano.
Meu sueco e eu conversamos muito sobre isso, futuro e filhos mas isso pra outro post. Vou tentar escrever no blog com mais frequencia contando um pouco mais do meu sofrimento e peregrinação nas mãos da agencia de imigração sueca ( Migrationsverket) e todo este processo de mudança de país. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Meu casamento

Nossa história começou em um outono em Buenos Aires. Ele sueco, eu brasileira, ambos de férias na cidade do tango. 
Desde o primeiro beijo foi impossível nos distanciarmos. Então, ele entrou escondido na minha mala e veio para o Brasil. Aprendeu português e começou a falar "égua". Mas um dia foi preciso voltar para Europa e então nós decidimos que era a minha vez de fazer as malas. Foram muitas idas e vindas. Muitas milhas acumuladas em TAP, TAM...Outros meses sem se ver. Outros meses matando a saudade. Skype, facebook e whatsapp ajudaram bastante também. Percebemos que a distância é um detalhe quando se ama. 
Casamos e decidimos partilhar a mesma estrada, seguindo juntos com muito amor e respeito. Obrigada por me ensinar o que é o amor. Te amo, te admiro e te desejo com todo meu coração meu sueco lindo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre ex

Resultado de imagem para não olhe pra trás não é pra lá que você vai
Sobre o texto de Duvivier para Clarice tratando de saudosismo de relacionamentos passados só tenho a dizer que isso é falta do que fazer. O que passou, passou. Acabou. Não sinto saudade de ex. Um único que seja. Por muito tempo senti saudade de um primeiro namorado. Até que um dia, num reencontro ocasional muitos anos depois, eu entendi que o que tivemos nunca mais voltaria. Ele não era mais o mesmo. Eu não era mesma menina. As circunstâncias não eram mais as mesmas. Em outra ocasião tentei ficar amiga de ex, um ex de um relacionamento que durou muitos anos, mas então percebi que ele arrumou uma nova namorada e me procurava apenas quando precisava de alguém para massagear seu ego. Nunca tivemos recaídas. Mas eu simplesmente aprendi que não valia a pena sustentar uma "amizade" unilateralmente. É vida que segue. O resto...bom foi resto. Aprendi, cresci, pensei sobre meus erros mas nada que acho que vale a pena ser revivido. Lições que já foram aprendidas não precisam ser revistas (os). Os erros que cometi já consegui me perdoar. Isso mesmo: me perdoar. Porque as vezes o mais difícil não é pedir perdão. É perdoar a si mesmo por falhas que deixaram o relacionamento em "xeque-mate". Mas nunca fui leviana com meus sentimentos. Tentei fazer com que meus relacionamentos dessem certo até o ultimo suspiro. As vezes a massagem cardíaca ainda se estendia mesmo depois de declarado a hora-morte da relação. Eu chorei e pranteei tudo que foi necessário prantear em cada relacionamento fracassado. Revi comportamentos e muitas vezes me julguei e fui dura comigo mesma. Mas a idade...ahh a idade. ( pode ter sido um novo amor também) abrandou tudo em mim que eu odiava continuar a refletir. Aprendi a praticar a benevolência para comigo. Ser gentil e paciente com meu coração. Esperar o tempo dele. E nesse tempo aprendi que não, não é preciso falar de ex e nem com ex. Aprendemos juntos mas passou. E como dizia aquele famoso poeta contemporâneo: Ado- Aaaado - Cada um no seu quadrado. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

As sutilezas da Verdade - Yoskhaz

O Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, cuidava do jardim no pátio interno do mosteiro quando chegou um homem que nos procurou em busca de amparo às suas aflições. Sentia-se atormentado com uma série de atitudes do passado que, agora, vinham lhe corroer a consciência. O Velho fez sinal para que eu mesmo o atendesse sentado à sombra da roseira. O homem me contou uma triste história onde impusera dor e sofrimento a outras pessoas. Indignado, fui duro em minhas palavras, sem poupar a minha revolta pelo que acabara de ouvir. Visivelmente constrangido, o homem agradeceu, por educação, não por sentimento, se levantou e foi embora. O monge que a tudo assistira, disse: “A sabedoria milenar nos ensina que ‘não é não; sim é sim’, mas temos a escolha de dizer a verdade com mel ou com fel”. Retruquei dizendo que não podemos vacilar com a verdade. Dura ou amarga ela tem que ser dita. “Nesse caso, ele tinha a exata medida dos equívocos do passado, precisando mais de compaixão do que de reprimenda”, o monge expôs seu ponto de vista.
O Velho repousou o alicate no bolso, me ofereceu um sorriso bondoso e falou: “A verdade será sempre um valioso remédio. Como todo medicamento, a dose inadequada se torna veneno”.
“A verdade é terapia essencial de cura. Impossível atravessar o Caminho sem nos aliarmos a ela. Somente a verdade ilumina as feridas que tanto incomodam, mas ainda não diagnosticamos”.
“Todavia, a escolha das palavras, a maneira e o momento de falar são posologias desse valioso remédio. Não podemos nos reportar a todos de um único jeito ou na mesma hora. Alguns já são capazes de suportar doses maiores, em outros, temos que começar ministrando pequenas gotas, para que não haja rejeição, casos em que almas embrutecidas e despreparadas entram em colapso e se negam a prosseguir em tratamento de cura”. Deu uma pequena pausa e disse: “Lembre-se que a verdade absoluta nos aguarda em estação distante. Ela vai se apresentando passo a passo, para todos, sem distinção, na medida do andar e do ritmo de cada um no Caminho. Não é diferente para mim ou para você”, disse o Velho.
Contrariado, provoquei dizendo que, em alguns casos, talvez fosse melhor mentir. Ele arqueou os lábios em leve sorriso ao perceber a minha intenção e falou sem perder a calma: “Penso que jamais devemos mentir. A mentira sempre será um elemento da escuridão por enevoar a realidade, iludir o andarilho e atrasar a viagem. A mentira é uma profunda falta de respeito tanto para o autor quanto ao destinatário”.
“No entanto, você deve ter a exata dimensão de qual sentimento te move antes de proferir qualquer palavra. A sua intenção é usar a verdade para curar ou para ferir? Não raro vejo a verdade sendo usada apenas para impor sofrimento, sem qualquer função educativa. Casos, estes, em que é melhor calar. Não se esqueça que sempre poderemos utilizar uma boa ferramenta para o bem ou para mal. Usa-se o martelo tanto na construção quanto na demolição”.
Naquele momento me senti desorientado e confessei que não sabia como agir em situações, por vezes, bastante delicadas. O monge tinha a pele bastante vincada pelo tempo, marcas de muitas lutas, que serviam de interessante moldura para os seus olhos, ainda brilhantes e repletos de bondade. Ele disse com seu tom de voz sempre sereno: “Assim como não podemos revelar todo o conhecimento para uma criança que acaba de entrar no colégio, por ela precisar de maturidade e aprendizado sobre certas disciplinas para entender outras de maior complexidade, muitos de nós ainda estamos na infância da alma. É inútil ensinar o cálculo de uma raiz quadrada para alguém que ainda não domina as quatro operações básicas. A pedagogia de ensino para um universitário é diversa para aquele que ainda está nas classes primárias. Para cada qual a lição exata, a medida e a maneira de revelar a verdade, de acordo com a capacidade de percepção do aprendiz”.
O Velho segurou em meu braço e me fez caminhar com ele pelo jardim enquanto continuava a falar: “Como poderosa lanterna, a verdade traz o poder de mostrar as sombras que nos habitam e dominam. Estas são as feridas que precisam de medicamento e cura. Nem sempre é agradável ver. Há que se ter coragem e, acima de tudo, temos que estar prontos para enfrentar um inimigo sagaz: cada qual na tentativa de iludir a si próprio sobre a justificativa de seus erros. Nossas sombras iludem a consciência, pois para sobreviver se fingem protetoras a manipular o ego, que por defesa repudiará a verdade”.
“A verdade é um instrumento que deve ser bem aproveitado tamanho é o seu valor. Por sua sutileza, deve ser afinado pelo diapasão do coração, dedilhado com a sensibilidade da sabedoria. Sem esquecer que não se compõe uma sinfonia em um único dia. Yoskhaz, a paciência é uma bela e indispensável virtude, companheira inseparável da verdade”.
Ainda tentando alocar as ideias em minha mente, citei uma expressão popular que diz que ‘a ignorância protege’. O Velho riu com vontade e depois me disse: “A ignorância nunca protege, apenas ilude e aprisiona em falsa sensação de segurança. É como manter um pássaro em uma gaiola sob a alegação de resguardá-lo dos perigos do mundo. É como se o desconhecimento da existência de um problema o fizesse desparecer. É como se o fato de esconder a doença de um paciente fosse capaz de levá-lo à cura. Enfim, pura bobagem”!

Deu uma pequena pausa e finalizou: “A verdade é a ponte necessária para alcançarmos a imensidão da liberdade e a grandeza da justiça. Sem aquela não teremos estas. Essa ponte está à disposição de todos, mas não fácil percorrê-la. Alta e extensa, é preciso coragem para atravessar sobre o enorme abismo das atraentes sombras; delicada e sutil, necessita de sabedoria para abdicar de muitas coisas tangíveis, que tanto pesam, em prol das belezas invisíveis que conferem leveza;  e, por fim, por estar tão sujeita às intempéries da vida, torna indispensável o amor na sutileza de entender que essa travessia, muitas vezes, é solitária, pois nem todos, neste instante, possuem o equilíbrio necessário para manter os passos até o outro lado”.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Namorar um sueco é...


Tudo começou em Janeiro de 2014. Eu ansiava por uma mudança. O trabalho estava chato, a vida amorosa estava chata (um caos seria a palavra ideal) e minha vida social uma bagunça sem igual. Primeiro, pensei em mudar de trabalho, mas levei a porta fechada no meio da cara. "Ok, portas fechadas acontecem. Nada fora do normal." pensava tentando ser otimista, o que não é uma das minhas melhores qualidades.(queria mesmo era enfiar a cara num buraco feito um avestruz e esperar que ninguém me notasse) . Resolvi que era hora de viajar, e mesmo estando atolada em trabalho e na pior época que eu poderia escolher para viajar, eu pedi minhas férias, que estavam sendo adiadas há pelo menos dois anos e (amém) fui atendida. A passagem foi escolhida para o local mais barato e legal que eu consegui: Buenos Aires. A cidade é bela e particularmente um dos meus passeios favoritos. (recomendadíssimo). Mas dessa vez, queria mesmo era fazer um mochilão sozinha. Escolhi fazer a trilha dos B's: Belém/PA - Buenos Aires - Bariloche - Buzios - Belém. O voo de volta para o Brasil sairia de Bariloche. Então o plano era chegar em Buenos Aires e fazer o percurso de ônibus parando nas cidades que me parecessem mais atraentes. Com a passagem e o mapa da Argentina todo rabiscado na mão, parti rumo a Buenos Aires. 
Ahhh Buenos Aires, a cidade do Tango, do fernet, do romantismo (para todos os outros menos pra mim). Fiquei no Hostel de sempre mas (in)felizmente não tinha quarto só para mulheres. Como pretendia partir logo cedo, não me importei em ser alocada em um quarto com homens e mulheres. Cheguei por volta de meio-dia e precisava descansar do voo. Fui para meu quarto deitar e rabiscar um pouco sobre meus planos. Estava sozinha. Não tinha intenção nenhuma de sair naquele dia. Partiria bem cedo para a rodoviária. Mas o destino prega peças na gente e muda nossos planos sem nosso consentimento. Naquela mesma tarde, entrou naquele quarto o par de olhos mais lindos que eu já havia visto. E por uns poucos segundos o mundo parou de girar. Eu lembro de como não conseguia enxergar outra coisa além dos olhos dele. Como diria chaves: fiquei hipopotizada. rsrs 
Em algumas horas descobri o nome, a nacionalidade(sueco), que era da minha idade e solteiro. Ligando o modo "guerra"(esse botão estava com teia de aranha) eu precisava faze-lo querer me beijar. Com discrição e muito artimanha feminina eu tentava criar situações onde ele tivesse o desejo de sentir o gosto do meu batom (tentei o de framboesa,laranja, morango...). Mas o moço era desatento e incrivelmente respeitador (droga), e 3 dias se passaram sem que eu conseguisse nenhum avanço. A essa altura do campeonato, eu já tinha desistido de todos os outros planos de viagem. Buenos Aires é linda mesmo. Eu posso ir conhecer os pontos turísticos....de novo. Restaurantes, praças, museus...eu sou uma excelente guia turístico. E ele me achando amável e agradável, sem saber dos meus planos maquiavélicos, imaginando aqueles lábios rosados e barba vermelha roçando pelo meu pescoço, me beijando deliciosamente, sussurrando em meu ouvido (na época ele não falava português), aqueles olhos azuis me despindo...essa minha mente tem uma incrível capacidade criativa (leia-se imaginar perversões).  
Ao final do 3º dia, eu consegui a oportunidade perfeita: uma festa organizada pelo hostel. Eu posso embebeda-lo, beija-lo e... (Pelas leis da Argentina isso seria Estupro? Sei lá.É bom ter um código penal do país em que estamos passeando)  
Eu era uma das poucas mulheres na festa, então não foi difícil receber os galanteios de outros homens até de nacionalidades diferentes (lembro de um americano e de um uruguayo), mas o problema(?) é que eu só tinha olhos para o sueco, aquele sueco. Nenhum outro. Passaria despercebido por mim se Richard Gere estivesse ali pedindo meu telefone. 
Todos os meus artifícios (confesso que até para decotes eu apelei) e até o melhor batom não foram suficientes. Fiquei sem ideias. Sinceridade! Foi a ultima coisa que consegui pensar: "Não sou interessante para você? Um beijo seria pedir demais?". Ele me olhou com um jeito meio desconcertado. Eu não tinha certeza se era o correto a fazer ou se era efeito da bebida me dando coragem pra fazer uma pergunta dessas. Mas funcionou. Ele me beijou. E fez um único comentário que me fez ter a certeza de ter ganhado o jogo: "que lábios mais suaves".  Eu consegui. AHA! Alvo atingido, coronel. Acertamos em cheio. Gooooooooolllll! 
E ele se tornou o homem mais carinhoso, mais atencioso, mais apaixonado que eu já conheci. Daquele dia em diante eu nunca mais acordei sem receber um beijo de bom dia e boa noite dele mesmo a distância. Eu tinha certeza que era ele. O homem certo e fui atrás. Nunca estive tão feliz de ter insistido em algo que eu tinha certeza. Aqueles olhos azuis escondiam algo que eu não sabia explicar, apenas sentir. Ele voltou para Belém comigo, onde passamos 1 ano e seis meses juntos. 
 Faremos dois anos juntos este mês, planejando um casamento e uma nova vida na Suécia. Viajei para conhecer meus sogros e nova família. Fui tratada tão bem que não sobra espaço para dúvidas do que eu quero. Fazer dele o homem mais feliz do mundo assim como ele me faz. 
E tudo começou em um outono qualquer em Buenos Aires, passou pelo verão escaldante Brasileiro, viajou pelo inverno rigoroso da Europa ( com direito a pedido de casamento em um cruzeiro pelo mar baltico) para terminar no inicio de uma nova vida na primavera Sueca. Amor de verdade existe, eu apenas não havia tido o prazer de conhece-lo. 




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Suécia

A Suécia é um reino escandinavo de nove milhões de habitantes, dos quais quase dois milhões vivem dentro e ao redor da capital, Estocolmo. A Suécia urbana é moderna, elegante e segura. A Suécia rural respira tranquilidade e a Suécia natural abriga algumas das maiores áreas desabitadas na Europa Ocidental. Embora o extremo norte do país esteja acima do Círculo Polar Ártico, seu clima é temperado, com verões alcançando 30 graus e invernos com 40 graus negativos.
País líder na conservação ambiental, a Suécia possui grande beleza cênica. Mais da metade de seu território é coberto por florestas, enquanto rios e lagos compõem 10% de sua superfície. Na política internacional, a Suécia tem construído reputação como nação mediadora. O país assume não-alinhamento em conflitos internacionais e se esforça para oferecer refúgio seguro para debate diplomático entre facções rivais em todo o mundo. Como resultado, os suecos viram uma longa lista de importantes cargos internacionais confiadas a seus concidadãos.
Apesar de suas riquezas naturais, a Suécia é um país construído por pessoas. Durante o último século, a dependência sueca da madeira e do minério de ferro deu lugar a uma ênfase em recursos humanos. Hoje, o conhecimento é trunfo da Suécia, com a educação mantida no domínio público e desenvolvida a um padrão que a classifica entre as mais altas nas estatísticas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Para mais informações sobre a Suécia consulte Sweden.se – o portal oficial da Suécia.

Sociedade sueca

A Suécia continua a ser um dos países mais igualitários em termos de distribuição de renda e tem um dos níveis de pobreza mais baixos do mundo. Ela aparece no topo do Índice de Desenvolvimento Humano, que classifica os países de acordo com expectativa de vida, educação e padrão de vida. Embora os suecos paguem altos impostos para manter seu premiado sistema de bem-estar social, não são as pessoas mais tributadas no mundo.
A Suécia conseguiu criar um equilíbrio entre igualdade social e sucesso econômico. A educação é gratuita (exceto para creches e ensino superior, que são parcialmente financiadas pelo governo), a saúde é barata, o cuidado de crianças é universal e as ruas são limpas.

Estilo de vida sueco

O estilo de vida sueco reúne amor à natureza, boa habitação, pensamento ambiental e muita cultura. Eficiência é combinada com uma atitude descontraída e tradições antigas misturadas com abertura para novas tecnologias. Suecos em geral trabalham duro, mas valorizam ​​seu tempo livre e desfrutam de longas férias relaxantes.
O estilo de vida sueco varia muito com as estações. Durante os meses mais escuros do inverno, há luzes nas janelas e noites no cinema, e esportes de inverno durante o dia. Na primavera e no verão, a vida é ao ar livre: festivais de música, teatros e museus ao ar livre são populares.
Tradições como o Midsummer, em junho, e a festa de Santa Lucia, em dezembro, são de grande importância para os suecos, e celebradas hoje com o mesmo entusiasmo de outras gerações. Esse sentido de tradição é misturado com uma mente aberta para outras culturas, em virtude do fato de que um quinto da população tem raízes em outros países, de que os suecos viajam muito e falam outras línguas.
A partir de uma combinação de clima com um inverno rigoroso e luz intensa no verão, a nasceu comida caseira sueca. Ela é repleta de delícias. Uma grande variedade de ingredientes frescos fazem parte do cardápio sueco, entre eles frutos do mar, aves, cordeiro, carne bovina, carne de vitela e caça selvagem. Os métodos tradicionais de defumação, fermentação, salga, secagem, marinagem e caça furtiva oferecem sensações únicas ao paladar. Paisagens únicas e áreas cultivadas se estendem de norte a sul da Suécia, assim como extensas florestas. As florestas e zonas húmidas não só favorecem a caça selvagem, mas também oferecem uma sorte de cogumelos, groselhas, mirtilos e amoras. Os suecos que passam o verão colhendo frutas e ervas variam os temperos e sabores das quentes e saudáveis sopas de inverno. A culinária caseira sueca é surpreendente e saborosa.

Fonte: https://studyinsweden.se/study-information/ciencia-sem-fronteiras/sobre-a-suecia/

Em todas as bençãos que tive, você foi a maior delas.

 Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.







segunda-feira, 12 de janeiro de 2015


Contei meus anos e descobri que tenho menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. 
Tenho muito mais passado do que futuro. 
Então, já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero reuniões em que desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos cobiçando o lugar de quem eles admiram.
Já não tenho tempo para conversas inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas idosas, mas ainda imaturas.
Detesto pessoas que não debatem conteúdos, mas apenas rótulos!...
Quero viver ao lado de gente que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
Apenas o essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial
Mário de Andrade

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Suposta Autoria de L.F.Veríssimo (mas eu não tenho certeza, hein)

“Me disseram “Você anda sumido” e me dei conta de que era verdade. Eu também, fazia tempo que não me via. O que teria acontecido comigo? Não me encontrava nos lugares em que costumava ir. Perguntava por mim e as pessoas diziam “É verdade, você anda sumido”. E “Que fim levou você?” Eu não tinha a menor ideia que fim tinha me levado. A última vez em que me vira fora, deixa ver… Eu não me lembrava! Eu teria morrido? Impossível, na última vez em que me vira eu estava bem. Não tinha, que eu soubesse, nenhum problema grave de saúde. E, mesmo, eu teria visto o convite para o meu enterro no jornal. O nome fatalmente me chamaria a atenção. Eu podia ter mudado de cidade. Era isso. Podia ter ido para outro lugar, podia estar em outro lugar naquele momento. Mas por que iria embora assim, sem dizer nada para ninguém, sem me despedir nem de mim? Sempre fomos tão ligados. No outro dia fui a um lugar que eu costumava frequentar muito e perguntei se tinham me visto. Não era gente conhecida, precisei me descrever. Não foi difícil porque me usei como modelo. “Eu sou um cara, assim, como eu. Mesma altura, tudo”. Não tinham me visto. Que coisa. Pensei: como é que alguém pode simplesmente desaparecer desse jeito? Foi então que comecei, confesso, a pensar nas vantagens de estar sumido. Não me encontrar em lugar algum me dava uma espécie de liberdade. Podia fazer o que bem entendesse, sem o risco de dar comigo e eu dizer “Você, hein?”. Mudei por completo de comportamento. Me tornei - outro! Que maravilha. Agora, mesmo que me encontrasse, eu não me reconheceria. Comecei a fazer coisas que até eu duvidaria, se fosse eu. O que mais gostava de ouvir das pessoas espantadas com a minha mudança era: “Nem parece você”. Claro que não parecia eu. Eu não era eu. Eu era outro! Passei a me exceder, embriagado pela minha nova liberdade. A verdade é que estar longe dos meus olhos me deixou fora de mim. Ou fora do outro. E um dia ouvi uma mulher indignada com o meu assédio gritar “Você não se enxerga, não?” E então, tive a revelação. Claro, era isso. Eu não estava sumido. Eu simplesmente não me enxergava. Como podia me encontrar nos lugares onde me procurava se não me enxergava? Todo aquele tempo eu estivera lá, presente, embaixo, por assim dizer, do meu nariz, e não me vira. Por um lado, fiquei aliviado. Eu estava vivo e bem, não precisava me preocupar. Por outro lado, foi uma decepção. Concluí que não tem jeito, estamos sempre, irremediavelmente, conosco, mesmo quando pensamos ter nos livrado de nós. A gente não desaparece. A gente às vezes só não se enxerga.”

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sem testemunhas - Olavo de Carvalho

"Albert Schweitzer, em "Minha infância e mocidade", lembra o instante em que pela primeira vez sentiu vergonha de si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim. Veio uma abelha e picou-lhe o dedo. Aos prantos, o menino foi socorrido pelos pais e por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert percebeu que a dor já havia passado fazia vários minutos e que ele continuava a chorar só para obter a atenção da platéia. Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida realizada, uma grande vida de artista, de médico, de filósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira trapaça. Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória, dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de auto-engano. Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube da sua vergonha, só ele teve de prestar contas de seu ato ante sua consciência e seu Deus. Estou persuadido de que as vivências desse tipo - os atos sem testemunha, como costumo chamá-los - são a única base possível sobre a qual um homem pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autônoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo - e contra si mesmo - é capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais. A razão disso é auto-evidente: um homem tem de estar livre de toda fiscalização externa para ter a certeza de que olha para si mesmo e não para um papel social - e só então ele pode fazer um julgamento totalmente sincero. Somente aquele que é senhor de si é livre - e ninguém é senhor de si se não agüenta nem olhar, sozinho, para dentro de seu próprio coração. Mesmo a conversa mais franca, a confissão mais espontânea não substituem esse exame interior, porque aliás só valem quando são expressões dele, não efusões passageiras, induzidas por uma atmosfera casualmente estimulante ou por um sincerismo vaidoso. Mais ainda, não é apenas a dimensão moral da consciência que se desenvolve nesse confronto: é a consciência inteira - cognitiva, estética, prática. Pois ele é ao mesmo tempo aproximação e distanciamento: é o julgamento solitário que cria a verdadeira intimidade do homem consigo mesmo e é também ele que cria a distância, o espaço interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos são assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem esse "mundo" pessoal conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações entram e saem - como os alimentos - transformadas em detritos. Ora, nem todos os seres humanos foram brindados pela Providência com a percepção espontânea e o julgamento certeiro de seus pecados. Sem esses dons, o anseio de justiça se perverte em inculpação projetiva dos outros e em "racionalização" (no sentido psicanalítico do termo). Quem não os recebeu de nascença tem de adquiri-los pela educação. A educação moral, pois, consiste menos em dar a decorar listas do certo e do errado do que em criar um ambiente moral propício ao auto-exame, à seriedade interior, à responsabilidade de cada um saber o que fez quando não havia ninguém olhando. Durante dois milênios, um ambiente assim foi criado e sustentado pela prática cristã do "exame de consciência". Há equivalentes dela em outras tradições religiosas e místicas, mas nenhum na cultura laica contemporânea. Há as psicanálises, as psicoterapias, mas só funcionam nesse sentido quando conservam a referência religiosa à culpa pessoal e ao seu resgate pela confissão diante de Deus. E, à medida que a sociedade se descristianiza (ou, mutatis mutandis, se desislamiza, se desjudaíza etc.), essa referência se dissolve e as técnicas clínicas tendem justamente a produzir o efeito oposto: a abolir o sentimento de culpa, trocando-o ora por um endurecimento egoísta confundido com "maturidade", ora por uma adaptatividade autocomplacente, desfibrada e cafajeste, confundida com "sanidade". A diferença entre a técnica religiosa e seus sucedâneos modernos é que ela sintetizava numa mesma vivência dramática a dor da culpa e a alegria da completa libertação - e isto as "éticas leigas" não podem fazer, justamente porque falta nelas a dimensão do Juízo Final, da confrontação com um destino eterno que, dando a essa experiência uma significação metafísica, elevava o anseio de responsabilidade pessoal às alturas de uma nobreza de alma com o qual as exterioridades da "ética cidadã" não podem nem mesmo sonhar. Há dois séculos a cultura moderna vem fazendo o que pode para debilitar, sufocar e extinguir na alma de cada homem a capacidade para essa experiência suprema na qual a consciência de si é exigida ao máximo e na qual - somente na qual - alguém pode adquirir a autêntica medida das possibilidades e deveres da condição humana. A "ética laica", a "educação para a cidadania" é o que sobra no exterior quando a consciência interior se cala e quando as ações do homem já nada significam além de infrações ou obediências a um código de convencionalismos e de interesses casuais. "Ética", aí, é pura adaptação ao exterior, sem outra ressonância íntima senão aquela que se possa obter pela internalização forçada de slogans, frases feitas e palavras de ordem. "Ética", aí, é o sacrifício da consciência no altar da mentira oficial do dia." "Sem testemunhas" Olavo de Carvalho O Globo, 22 de julho de 2000 Fonte: www.olavodecarvalho.org